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domingo, 21 de setembro de 2008

É TDB!

O botafoguense não é normal. Definitivamente. Experimente conversar com um! Você fala para ele: “Diga o nome de um atacante matador que vestiu a camisa alvinegra e deixou saudade”. Ele diz na lata: “Sinval”. Você acha que não escutou direito e decide passar para outra: “Que técnico tem a cara do Fogão e seria bem-vindo de volta ao clube”? Ele responde, já meio emocionado (botafoguense chora fácil): “Carlos Alberto Torres”. Então, desorientado, você coloca uma última questão: “Qual o título do Botafogo que marcou sua vida”? E ele responde, não contendo mais as lágrimas: “Ah, inesquecível mesmo foi a Conmebol de 1993”!

O botafoguense é assim. Por isso, nem causou muito espanto a notícia de que o time do Botafogo está concentrado e focado na conquista da Copa Sul-Americana! A Sul-Americana é hoje o que a Conmebol foi ontem, ou seja, nada. Mas, para o botafoguense, uma Conmebol mais uma Sul-Americana dá muito bem um bicampeonato continental, como não?! As recentes declarações do goleiro Castillo (cada vez mais com jeito de botafoguense) não deixam dúvida de que o time alvinegro vai lutar pela Sul-Americana com ainda mais paixão do que o Fluminense lutou pela Libertadores. “Essa competição é tudo de bom”, falou o uruguaio. Para o flamenguista, tudo de bom (TDB, como dizem por aí) é Juliana Paes. Para o vascaíno, é a Mulher Melancia. Para o fluminense, é Sabrina Sato. Para o botafoguense legítimo, é a Copa-Sul Americana... A vida é isso. A vida é sonho.

Animado com a perspectiva de mais uma expressiva conquista internacional, Carlos Augusto Montenegro, o cartola TDB, eterno ídolo da torcida, não resistiu e anunciou: vai ser candidato a presidente do clube. Montenegro é o presidente do Ibope há mais de trinta anos. Homem de números, com o bolso cheio de estatísticas. Já dirigiu o Fogão e foi campeão brasileiro em 95. O anúncio de sua candidatura, ao contrário do que aconteceria em qualquer outro clube do país, não despertou a ira da oposição nem desencadeou uma enxurrada de acusações gratuitas, denúncias e xingamentos pela imprensa. Nada. Nem uma palavra. Até porque, até agora, ninguém, além de Montenegro, parece interessado em ser presidente do Botafogo. “Senti que baixou um astral negativo de uma hora para outra”, explicou o cartola, justificando sua candidatura e salvando o clube da situação inusitada – mesmo tratando-se de Botafogo – de ficar sem presidente por falta de candidato ao cargo.

A primeira entrevista de Montenegro como candidato mostra que o homem continua lúcido. Não é do tipo que se deixa dominar pela paixão. Começa com esta delicada imagem poética: “O Botafogo é uma cachaça, um vício”. Em seguida, o dirigente, mostrando profundo conhecimento de estatística, fala uma verdade que estava aí no ar e ninguém ainda havia tido coragem de dizer: “O Botafogo enche muito mais estádio do que a Seleção Brasileira”. Quando a gente vê o presidente do Ibope dar esse tipo de declaração, começa a pensar se dá mesmo para levar a sério aquelas pesquisas que dizem que a torcida do São Paulo é a terceira do Brasil... E o homem vai além: “O nosso time de hoje é até melhor do que o do Brasil”. Como se isso fosse vantagem...

Uma coisa, contudo, preocupa o dirigente botafoguense: a falta de identificação do torcedor com o novo estádio do clube, o Engenhão. Acostumada a vibrar em Caio Martins, onde se fazia ouvir e até dava a impressão de ser numerosa, a torcida do Botafogo ainda se sente tão a vontade no estádio do Pan quanto o Gil dentro da grande área, ainda fica constrangida de atirar muletas, dentaduras e cabeças de boneca no gramado, entre outros incríveis objetos que, nas mãos de um botafoguense, podem virar arte conceitual de uma hora para outra. Mas Montenegro também já sabe o que fazer para deixar o Engenhão com a cara do Fogão: “O estádio precisa de um mastro bem grande com a bandeira do Botafogo, que possa ser visto de todo o Rio de Janeiro”. Mastro, Montenegro?! Quem gosta de mastro é são-paulino! O Engenhão precisa é de uma estátua com duas vezes o tamanho do Cristo Redentor, simbolizando uma grande conquista! Uma estátua em homenagem ao título da Conmebol 93, pronto! Uma estátua gigante, em pedra sabão, de Sinval, o matador! A torcida botafoguense vai passar a chamar o estádio de “Sinvalzão” e nunca mais vai ter saudade de Caio Martins, pode anotar!

Finalmente, Montenegro encerrou sua entrevista de maneira apoteótica. Botafoguense que se preze não consegue falar meia hora sem dizer pelo menos uma vez o nome de Túlio Maravilha, seguido sempre de odes e hinos de louvor. O dirigente quer o atacante de volta ao clube. Aproveitou para dizer que tem veterano que ainda dá no couro e tem veterano que só atrapalha, tipo... Edmundo! “O Vasco entra em campo com menos um”, provocou. Vê-se que Montenegro não tem acompanhado o Campeonato Brasileiro... O Vasco entra em campo com menos onze! O cartola encerrou garantindo à torcida que vai começar sua gestão com uma contratação bombástica, fora Túlio, que já é de casa: “O clube precisa de um atleta que venha para fazer a diferença. Um jogador do meio para frente. Um que faça gols, um que as crianças queiram entrar com ele em campo e as pessoas comprem camisas”. Em resumo, um tudo de bom! TDB! Num clube normal, ele estaria falando de Carlitos Tevez, Valdívia, Ronaldo Fenômeno. Mas Botafogo é Botafogo... A gente nunca sabe... Tá mais pra Sinval, hein! Sinval TDB! Sinval, o matador!

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Alcatraz (ou Passaporte para a Confusão)

Feliz da vida com a transferência para o Manchester City e empolgado por enfrentar uma defesa tão bem postada como a chilena, Robinho aproveitou o final de semana nos Andes para fazer o que realmente gosta: falar mal do Real Madrid. Entre outras coisas, disse que preferia “vender pastéis no mercado” a continuar jogando pelo clube espanhol. Se Robinho tiver para pasteleiro o mesmo talento que tem para pipoqueiro, já tem uma nova carreira para começar, quando decidir fazer o que Ronaldinho Gaúcho decidiu há muito tempo – parar de jogar.

O Robinho só não pipoca contra o Chile porque ali pipoca estrangeira não tem vez. O Chile não precisa que venha um especialista de fora ensinar como é que se dá aquela pipocada gostosa! Apesar de que o maior pipoqueiro do time, El Mago Valdívia, nasceu na Venezuela... E a equipe é dirigida pelo argentino Marcelo Bielsa, grão-mestre pipoqueiro consagrado internacionalmente com comendas e distinções. Principalmente na Suécia e na Inglaterra, onde é cultuado desde a Copa de 2002 e ainda há de dar nome a bucólicas pracinhas. O Bielsa é, enfim, praticamente o Pelé da pipoca! É... Está certo... Craque venezuelano, técnico argentino... Essa pipoca chilena é meio paraguaia!

O fato é que, de vida nova, Robinho voltou a ser referência e a influenciar o futebol brasileiro. O desfecho surpreendente de sua novelinha, em que traiu o Real Madrid namorando o Chelsea e, depois, entregou-se facinho ao Manchester City, tem inspirado muita gente no Brasil. O Vasco (sempre o Vasco; é impressionante!), não satisfeito com o que já fez de bagunça este ano, surpreendeu o mundo, provou que pode ainda mais do que se imaginava e, sim, aprontou mais uma. O Vasco acertou com o Sharjah, dos – adivinhe – Emirados Árabes, a venda do atacante Jean. Até aí, tudo bem. Jean era reserva, quase não vinha sendo aproveitado, criou tumulto há pouco tempo ao tretar com o Edmundo, vivia resmungando, reclamando de tudo, com cara de coitado, e treinava com aquele entusiasmo de paciente desenganado pelos médicos. Mas, se os árabes acham que o clima ameno do deserto pode deixá-lo mais alegrinho que o Vampeta, tudo bem: querem que embrulhe ou vão levar assim mesmo? Manoel Fontes, o vice de futebol do clube, tratou logo de fechar negócio. Jean, aliviado, fez questão de zerar a conta, pra não levar mágoa na bagagem: despediu-se de todos os colegas, um por um. Fez as pazes com Edmundo, desejou boa sorte aos que ficam, deu bons conselhos aos mais jovens e até quis abraçar o técnico Tita. Pois não é que o treinador vascaíno, que nunca reparou muito em Jean quando ele estava lá esperando uma chancezinha de jogar, resolveu dar uma de marido traído na hora da despedida! Passou um sabão no jogador e exigiu sua permanência em São Januário. Com vôo marcado às pressas para domingo, Jean deixou Tita falando sozinho e foi cuidar da vida. Fez as malas e foi para o aeroporto. Quando estava na fila do check-in, notou que seu celular tocava e, ingênuo, tolinho, atendeu. Era Roberto Dinamite. Depois de dias procurando em meio a uma papelada embolorada dos diabos, o presidente do Vasco finalmente encontrou uma cópia do contrato do clube com Jean. Com multa rescisória estipulada em R$ 18 milhões, o que, evidentemente, nem Jean, nem os árabes, nem o próprio Dinamite, ninguém sabia até então. Dinamite bateu o pezinho e, tipo assim, ignorando completamente o acordo firmado pelo vice Manoel Fontes, cobrou dos árabes o dinheiro. Os árabes, levemente desconfiados de que o Brimo Dinamite tentava passá-los para trás, não aceitaram pagar mais nada. E Jean, bem orientado, bem assessorado, como sempre são os atletas brasileiros, ficou tão apatetado com a notícia, que perdeu o vôo e não saiu do Rio. Tita, vingado em sua honra de macho ferido, quer que o atacante se apresente imediatamente no clube e está ansioso para poder voltar a não o utilizar para nada. Jean, mais envergonhado do que torcedor da Portuguesa quando chega à puberdade, diz que não tem “nem cara para voltar”.

Quer saber o que é realmente o Vasco da Gama? Esqueça os jogos do time! Vá à locadora mais perto e leva pra casa Alcatraz – Fuga Impossível! Se não tiver, pegue Passaporte para a Confusão, que, ao contrário do que o nome sugere, não é sobre a emocionante história da transferência de Jean para o futebol árabe: é só mais uma daquelas comédias americanas que, normalmente, a gente vê sem saber por que, mas que, para um coração sensível e machucado como o do torcedor vascaíno, pode ser uma verdadeira lição de vida.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Deus me livre!

A imprensa carioca bem que tentou, mas não conseguiu arrumar assunto para mais um capítulo na novela que se tornou a contratação de Márcio Careca pelo Vasco. Perguntaram ao vice-presidente de futebol do clube, Manoel Fontes, se é verdade que o Vasco, pra ter o jogador, vai mesmo brigar com o Barueri, time de Careca, na Justiça. O dirigente disse, em resposta, a única coisa que pode sair da boca de um homem de bem numa hora dessas: “Deus me livre”!

Enquanto o Vasco luta bravamente para convencer os repórteres do Rio a parar de perguntar por Márcio Careca, um de seus atletas, Madson, acha que o momento é oportuno para pedir aumento. Prometeram para o moleque, no começo do campeonato, que, se ele jogasse dez partidas como titular, receberia um adicional bacana, pra poder comprar um carro da hora e levar umas minas de Del Castilho pra dar rolê na Lagoa. Madson era reserva e não entrava nunca. Pois virou o “homem de confiança” (outra expressão bonita da crônica esportiva brasileira) de Tita, completou os dez jogos e, louquinho pra se jogar na night, foi cobrar o dinheiro. A diretoria do Vasco não disse nem que sim nem que não, e isso, vindo do Vasco, a gente já sabe o que significa... Significa que “Deus me livre”!

Já passou da hora de o Vasco copiar a organização do Flamengo. O Mengo, sim, sabe administrar orçamento, montar elenco, planejar temporada. Esta semana a diretoria apresentou, toda contentinha, o saldo desse período de negociações. A ida de Marcinho para algum lugar deserto no Oriente Médio não rendeu muito: R$ 750 mil. Já a venda de Souza ao Panathinaikos valeu R$ 4,75 milhões. Negocião. Em condições normais, a Justiça exigiria que o Flamengo pagasse para alguém levar o Souza, mas a diretoria rubro-negra encheu os gregos de caipirinha e, depois de algumas doses, os fanfarrões não só pagaram caro pelo Souza, como já estavam quase querendo também o Toró. Nada que se compare, contudo, aos R$ 13 milhões que o clube embolsou com a ida de Renato Augusto para o Bayer Leverkusen.

Sim: dezoito milhões e meio, somando tudo. Aí, o Flamengo, montado na grana, mostrou como é que se faz. Saiu às compras. Mas com cautela. O bom e barato, afinal, é uma receita que já rendeu frutos a muitos clubes. O Botafogo, por exemplo, foi até vice-campeão da Série B, usando essa estratégia.

Primeiro veio Eltinho, que estava no Cruzeiro, embora em toda a Grande BH ninguém soubesse disso. Baratinho. Duzentas merrecas. Fernando, do Mixto, mais desconhecido do que o clube em que estava, não veio assim tão fácil. Duzentas mil e quinhentas merrecas. Sambueza é argentino, estava no River, sabe das coisas. Não ia vir levar bomba de graça no Rio. Custou R$ 750 mil. Vandinho, do Avaí, parecia que ia dificultar. Afinal, é rodado, seus olhinhos sofridos já viram de um tudo nessa vida, sabe o que acontece quando a torcida pula o alambrado. Mas saiu por R$ 400 mil. Fernandão, quem quer que seja, para escapar de uns judeus que lhe cobravam juros em Israel, onde jogava, quase pagou para vir. Custou ao Flamengo R$ 50 mil. Como quem poupa tem, sobrou grana para o Flamengo fazer uma presença com a torcida e trazer um nome de peso, de arrebentar, de calar a boca do Eurico Miranda. Assim se chegou a Marcelinho Paraíba, ao preço de quase R$ 1,8 milhão. Finalmente, mostrando que não ligam pra dinheiro, os dirigentes flamenguistas esbanjaram R$ 1,2 milhão com Josiel, que era do Paraná e estava curtindo um calor nos Emirados Árabes, e R$ 240 mil com o chileno Gonzalo Fierro.

Valeu a pena garimpar esses talentos. O Flamengo fez uma baita economia e conseguiu formar o maior elenco do futebol brasileiro: entre latino-americanos milongueiros, cariocas legítimos e refugiados de Israel, 38 sujeitos na Gávea estragando roupa, deixando torneira pingando e combinando balada. Depois, lembrando que o Caio Júnior é do tipo que valoriza até o terceiro reserva e gosta de saber de um por um, antes do treino, como é que vai a família, a diretoria do Flamengo, pra poupar trabalho, dispensou quatro e, malandra que só, convenceu o Paraná Clube a ficar com eles. Sem pagar nada. Só na amizade mesmo.

Vandinho é seguramente o símbolo dessa leva de reforços flamenguistas. Sua contratação mostra como a diretoria rubro-negra estudou cada contratação e fez os negócios com cuidado, buscando sempre o melhor para o clube. Tudo começou com um contato entre o Flamengo e o Avaí (o Flamengo, claro, prima pela ética, e não é do tipo que já vai pondo minhoca na cabeça do jogador, sem nem falar com o clube em que o sujeito joga). O Avaí, ao saber do interesse do clube carioca por Vandinho, generosamente, compreendendo o momento difícil, a necessidade da equipe da Gávea, não ofereceu obstáculo: permitiu que os flamenguistas se entendessem logo com o atleta. Vandinho também não precisou de mais que alguns segundos para fechar. Já estava com a caneta na mão, pra assinar contrato, antes mesmo de o contrato ser redigido. Saiu de Santa Catarina direto para o Rio. Não inventou que tinha de resolver “problemas particulares”, visitar a mãe não sei onde nem nada. Chegou, apresentou-se e foi treinar. Como a torcida gosta. Como tem de ser. O preparador físico do Flamengo, Ronaldo Torres, contudo, estranhou, já no primeiro treino, que o jogador praticamente não saía do lugar. Não se apresentava. Não pedia a bola. Só sorria e batia palma pra passe errado. Mas eram os primeiros momentos. Clube novo. Clube grande. Podia ser só timidez, nervosismo, saudade do baião de dois da avó. Mas no segundo treino foi a mesma coisa. Ronaldo ficou de olho e, como o desempenho do atacante não melhorava, depois do jogo contra o Goiás, em que Vandinho foi substituído e saiu manquitolando, encostou o cara na parede. E a verdade, sempre tão bela, apareceu: “Ele já tinha um problema na coxa quando ainda estava no Avaí. Escondeu a contusão com medo de que a negociação pudesse ser cancelada”, revelou Torres. Vandinho, o sincero, explicou à imprensa que fez isso por amor, para realizar seu sonho de jogar no Flamengo.

O Flamengo é mesmo um sonho! É um dos raros clubes que tem a coragem de dispensar o exame médico pré-contratação, essa burocracia dos diabos, que só serve pra atrasar o registro do jogador na CBF. O Palmeiras também já fez muito isso, com sucesso, quando contratava Pedrinho e Jardel de olhos fechados, sem checar referências e confiando na palavra do atleta.

Vandinho, de qualquer modo, logo deve voltar, novinho em folha. E é importante que, nessa hora, o torcedor saiba perdoar o atleta. É importante apoiar o jogador e esse maravilhoso grupo de trinta e quatro guerreiros. A palavra de ordem tem de ser uma só. Um só discurso, um só coração. E a frase certa para unir Caio Júnior, elenco e torcedores nesse momento é aquela que os vascaínos conhecem melhor do que ninguém: “Deus me livre”!

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Saudade de quem não veio

O torcedor vascaíno não esquecerá tão cedo a última terça-feira, 26 de agosto. No dia, completaram-se dez anos da histórica conquista da Libertadores por aquele time de Carlos Germano, Mauro Galvão e Juninho Pernambucano.

Sem dinheiro nem pra encomendar um cento de coxinha frita e umas garrafas de guaraná Dolly, o Vasco não programou para a data nenhuma festinha ou homenagem. Mas, para o dia não passar em branco, decidiu fazer nele a apresentação oficial de seu novo reforço, o homem escolhido a dedo por Roberto Dinamite para tirar o time das últimas posições no Brasileiro: o lateral esquerdo Márcio Careca.

A imprensa carioca, acostumada a cobrir tiroteio em baile funk, encalhe de baleia em Copacabana, revolta em trem suburbano e coisa muito pior, não decepcionou: compareceu em peso para ouvir as primeiras palavras do – aonde é que o mundo vai parar!? – novo ídolo vascaíno. Tita, mostrando toda a confiança que tem no seu elenco, repetia, desesperado, que precisava demais desse reforço. No calor da emoção, até anunciou a estréia de Careca já para o próximo jogo do Brasileirão, contra o Grêmio.

Tudo em vão. Márcio Careca não apareceu em São Januário. Os diretores vascaínos corriam de um lado para o outro, falavam ao celular, davam palpites para o Jogo do Bicho, mas não conseguiam oferecer nenhuma explicação satisfatória para a ausência do novo reforço. No fim, pressionados, admitiram que, na verdade, Márcio Careca nunca assinou com o Vasco, que o Barueri, clube do jogador, dificultou a negociação, que vai ficar tudo por isso mesmo, que o importante é ter saúde, que a vida continua e que eu nunca vou te abandonar porque eu te amo.

Bom para todo mundo. Careca, que várias vezes escapou de apanhar – não diria merecidamente, mas, digamos assim, com motivo – da torcida do Palmeiras, pode continuar tranqüilo no Barueri, onde ninguém vai se preocupar em saber qual o destino das bolas que ele, nas raras vezes em que chega à linha de fundo e arrisca um cruzamento, joga, todo desengonçado, todo sofrido, quase fora do estádio. O torcedor do Vasco, que só não bateu ainda em ninguém porque não sabe por quem começar, também não precisa se preocupar em ter de colocar mais um na lista do acerto de contas.

A imprensa carioca, contudo, não gostou. Ela foi ali para ver um show, para fazer mais estardalhaço com a chegada de Careca do que a imprensa paulistana fez na volta de Maurren Maggi ao Brasil. Indignada com as desculpinhas dos dirigentes, exigiu explicações do técnico Tita. Afinal, como é que Tita anuncia que vai escalar na próxima partida um jogador que nem é do clube? A diretoria não havia lhe dado garantias? Tita, louquinho pra tirar o seu da reta, tratou logo de explicar que nenhum dirigente conversou com ele sobre a contratação de Márcio Careca. O técnico, na verdade, vinha acompanhando o caso pela imprensa...

Organização, divisão de responsabilidades, modernos mecanismos de comunicação, entendimento. O Vasco de Dinamite mostrou, num único dia, que é isso e muito mais. Muito mais, sim, pois não acabou aí. Quando os repórteres já se preparavam para voltar desanimados às redações, eis que surge em São Januário a lendária, carrancuda e consideravelmente obesa figura de Odvan.

Foi um rebuliço! Torcedores chorando, se abraçando! Repórteres sorrindo novamente! O Vasco, afinal, havia preparado uma surpresa. Aquela história de apresentar Márcio Careca era só pra despistar! Que Márcio Careca, que nada! Ele que vá jogar bola pela linha de fundo no interior de São Paulo! O Vasco decidira, então, homenagear todos os heróis da conquista de 98 na pessoa do humilde zagueiro Odvan, “símbolo da raça” (sempre dizem isso, né?) daquele time vencedor. Um gesto singelo, delicado, nobre. O Vasco pode não ter dinheiro, mas tem história, tem respeito pelos seus ex-jogadores e por sua torcida! Que terça-feira espetacular!

Bem, mas bastou os microfones serem apontados para Odvan, para todos descobrirem que não era nada disso. Odvan não havia ido a São Januário para inaugurar placa comemorativa, vestir faixa e recordar detalhes da campanha na Libertadores de dez anos atrás. Odvan não estava ali a passeio. Odvan pegou a camisa, vestiu, beijou e anunciou, para uma imprensa carioca que não ficava tão perplexa desde o dia em que descobriu que o Engenhão existia e não era só um projeto engana-mané, tipo estádio do Corinthians, anunciou, repito, que é o mais novo reforço do Vasco para o segundo turno do Brasileirão.

Um instante de silêncio. Passarinhos cantam ao longe. E de repente bate no torcedor vascaíno uma inexplicável saudade do Márcio Careca!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Leva, que é teu!

Contratar jogador no meio do campeonato, quando os elencos já estão todos formados, é uma arte. Tem de ter cautela, garimpar com cuidado, pra acertar e apresentar pra galera aquele reforço que vai fazer a diferença. Sim, porque ninguém contrata jogador no meio da temporada só “pra somar”, pra “compor o elenco”. Se o cara foi chamado na 22ª rodada, não é pra ficar treinando três semanas separado do grupo, recuperando-se fisicamente, pra depois ir entrando aos poucos, no segundo tempo: é pra chegar, vestir a camisa e resolver. O Vitória, por exemplo, já achou o homem. O time começou o mês todo assanhado, todo cheio de mandinga, crente que aproveitaria os confrontos com Grêmio, Cruzeiro e Palmeiras para assumir a liderança do campeonato e afundar os concorrentes. Perdeu dos três e foi parar em sexto lugar. Mas a diretoria se mexeu: mandou chamar o argentino Trípodi, que estava no Santos.

Devem ter sido os números do atleta que chamaram a atenção da diretoria do rubro-negro baiano. O atacante argentino jogou quinze partidas pelo Santos e fez história na Vila, ganhando o coração do torcedor com nada mais nada menos do que um gol marcado.

Se não foram os números, foi, com certeza, a forma física, a hiperatividade do craque. Injustiçado pelo Cuca, que jamais compreendeu o valor de seu futebol, sua entrega em campo, o argentino foi afastado do grupo. Valente, passou as últimas semanas treinando sozinho não no CT, mas na praia, onde eventualmente beliscava uma porção de lambari frito e tomava ali uns birinights, pra repor as calorias. Foi, aliás, num momento de intensa atividade num quiosque, que atendeu o celular e recebeu a proposta do Vitória.

A diretoria santista, comovida com o interesse dos baianos e ao mesmo tempo apreensiva com a saída do gênio, viu-se na obrigação de suprir a perda com uma contratação de meio de temporada. Ela sabia que o torcedor ia exigir uma resposta e, antes mesmo que começasse a tradicional chuva de chinelo (essa maneira inimitável que o torcedor santista tem de fazer protesto), tratou de anunciar o reforço: o meio-campista Bida. E Bida, vejam só como é a vida, estava onde, minha gente? Sim: Bida estava no Vitória.

Há quem garanta que não foi assim que aconteceu. Que, na verdade, o Santos é que foi atrás do Bida primeiro e, depois, em retribuição, foi obrigado a ceder Trípodi para o Vitória. Que seja! Agora que já estão os dois de olho roxo, não importa mais saber quem agrediu primeiro. Quem sai fortalecida com essas contratações é a matemática, uma vez que mais uma vez se confirma a velha máxima segundo a qual “a ordem dos fatores não altera o produto”.

Essa troca entre equipes que disputam o mesmo campeonato só não foi a mais ousada transação do mercado futebolístico nacional dos últimos tempos porque o Corinthians, modernizado, renascido, lançando tendências, acertou no final de semana a vinda do lateral esquerdo Pablo, de 22 anos. O clube trabalhou nos bastidores, na surdina, como anda fazendo ultimamente, e apresentou o garoto do nada. Tão do nada, que até agora Andrés Sanchez ainda não conseguiu explicar onde afinal o menino estava jogando, embora já se saiba que brilhou no Treze da Paraíba e em “equipes do interior de São Paulo”. Mas até aí não há nada de mais. A inovação está no fato de que Pablo, recém-contratado, já foi emprestado pelo Corinthians ao Bragantino e disputará a Série B pela equipe de Bragança Paulista.

Tá aí! Não adianta ter inveja. É por isso que o Corinthians é grande e tem torcida em tudo quanto é lugar. Que outro time, em plena segundona, teria a grandeza de ir buscar um reforço para um adversário? Que sirva de exemplo para os times da Série A! Imagine como seria mais legal o Brasileirão, se agora o Palmeiras, por exemplo, contratasse, sei lá, Edcarlos, e emprestasse para o Grêmio. Aí, o Grêmio, entrando no clima, acertasse com o Zé Elias e o cedesse por três meses ao Cruzeiro. O Cruzeiro ia lá e, pra não ficar pra trás, contratava o Perdigão e despachava para o Flamengo. Devia virar lei: cada time ficaria obrigado a contratar um jogador no meio da temporada e inscrevê-lo em outra equipe. Menos no Vasco. O Vasco vive no seu próprio mundinho, logo ali no universo paralelo. Um clube capaz de trazer Márcio Careca nessa altura do campeonato, pra acalmar a torcida e escapar do rebaixamento, definitivamente não precisa de mais nada.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

O recorde mundial que a TV chinesa não transmitiu

Muita gente acha que é censura e não gosta, mas o governo chinês, preocupado com a formação cultural do povo, tem como política não deixar passar qualquer porcaria na televisão. Esta semana a CCTV, emissora estatal, deu ao mundo uma mostra dessa seletividade e dos critérios que norteiam sua busca pela excelência na programação: passou ao vivo a semifinal do futebol masculino entre Nigéria e Bélgica e exibiu, só um dia depois, o VT de Brasil e Argentina.

Os chineses nem ligaram, claro, mas repórteres do mundo todo chiaram e exigiram uma explicação oficial da emissora. Pessoalmente, não vejo motivo para escândalo. A exibição de imagens do volante Mascherano cuspindo, chicletando e dando catarradas é, sim, má influência para as crianças. E nenhum canal de TV que busque qualidade vai passar ao vivo jogo de time treinado pelo Dunga.

De qualquer maneira, a explicação oficial foi exigida e a explicação oficial foi dada. Por Yu Liang, porta-voz da CCTV. Segundo o china, é uma questão de prioridades: “Tudo que é mais importante é transmitido pela televisão chinesa e podemos ver. Como o basquete ou a retirada e as desculpas do corredor Liu Xiang”. A gente percebe que os chinas realmente se abriram para o mundo e não vivem mais isolados como antigamente. Eles têm noção das coisas, sabem do que é que o povo gosta. O basquete, claro, é muito mais popular, muito mais importante que o futebol. E as desculpas do corredor Liu Xiang, então... Pô! Claro! Quem não quer ver isso aí? Eu tô superinteressado. Só me falta saber uma coisa: quem é Liu Xiang?

Yu Liang, com aquela carinha simpática que fazem os chineses quando se metem a engraçadinhos, aproveitou pra tirar um barato. Falou que, pessoalmente, não se interessaria em ver Brasil e Argentina: “Se fosse futebol feminino, sim. Gosto de ver”. Quando a gente tem a informação de que, no Brasil, a audiência do jogo feminino entre Brasil e Estados Unidos foi maior do que a do masculino entre Brasil e Argentina, começa a desconfiar de que a China vai mesmo dominar o mundo. Nossos torcedores já têm o mesmo gosto do Yu Liang.

Agora, se os chineses gostam de transmitir ao vivo perdedor dando desculpa, deviam ter passado em cadeia nacional a coletiva do Dunga após a derrota para a Argentina. O técnico brasileiro garantiu que essa geração olímpica ainda vai dar muitas alegrias aos torcedores. Vai, vai, sim, Dunga. Aos torcedores da Argentina principalmente! Aliás, é só pegar as escalações de outros times olímpicos brasileiros, que a gente encontra lá muitos nomes que não pararam de dar alegrias, como Fábio Bilica, Álvaro, Mozart e Warley.

O melhor momento da coletiva, no entanto, foi quando um repórter gringo perguntou ao Dunga aquilo que os repórteres brasileiros, mais amedontrados do que a seleção brasileira feminina de basquete, deveriam perguntar: “Seu time teve dois jogadores expulsos e sofreu três gols. Onde está o jogo bonito do Brasil”? Aí, Dunga, com o equilíbrio emocional que é próprio dos grandes líderes e a gentileza que caracteriza as palavras dos verdadeiros campeões, respondeu, crente que o gringo era britânico: “Seria maravilhoso se pudéssemos marcar gols em todos os jogos. Assim como seria maravilhoso se a Inglaterra tivesse ganhado mais Copas do Mundo, não só aquela que ganhou na década de 60, né”? Bem, o repórter, na verdade, era norte-americano. Dunga tem um senso de oportunidade inacreditável, né? Ele fala mal da Inglaterra, pra zoar um americano, dois dias antes de os Estados Unidos baterem o Brasil na final do futebol feminino. O Ricardo Teixeira está de parabéns por esse achado. O Dunga é a filosofia ofensiva do Parreira e a sensatez do Zagallo numa só pessoa.

Finalmente, a TV chinesa também bobeou ao não mostrar ao vivo a coleta de material para o antidoping de Ronaldinho Gaúcho. O meia levou mais de três horas para conseguir fazer o xixi. Os argentinos já longe, fazendo algazarra, Alexandre Pato elogiando a si mesmo e dizendo que sai de cabeça erguida, Dunga falando mal da Inglaterra pra repórter americano, e o Ronaldinho lá, sozinho, de cabeça abaixada, desesperado por terem exigido dele, na falta de uma jogada de habilidade ou de um golzinho, pelo menos algumas gotinhas de urina. Nenhum atleta sofreu tanto nas Olimpíadas como Ronaldinho na sala de coleta. Ele teve de buscar aquele algo a mais, aquela força interior, a raça que é sua grande característica, para conseguir encher o frasquinho. Calou a boca dos críticos que diziam que ele não estava se esforçando em Pequim. Pena que ninguém viu. A televisão chinesa, preocupada em mostrar qualquer coisa que tenha um chinês no meio, perdeu um daqueles momentos de superação no esporte que entram para a história e marcam uma geração. Ronaldinho Gaúcho lutando contra os limites do homem na prova de xixi individual é a imagem que vai faltar na retrospectiva dos Jogos de Pequim. Pouco importa o ouro no futebol. A urina mais demorada de todos os tempos foi um brasileiro que fez! Esse recorde é nosso!

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Isto é Brasil!

Muita gente anda desorientada com os fracassos dos atletas olímpicos brasileiros que foram como favoritos e os sucessos dos que eram tidos como azarões. Bobagem esquentar a cabeça com isso: a função do Brasil nos Jogos não é e nunca foi ganhar medalhas – o Brasil vai às Olimpíadas em missão civilizadora, ensinar o mundo a viver em harmonia, praticando as grandes virtudes humanas. O brasileiro, afinal, é sempre referência em matéria de diplomacia, boa convivência, gentileza e cordialidade. E nisso, mais uma vez, vai dando show em Pequim.

Sandro Viana, corredor dos 200m rasos, é um que vem se destacando pelo uso generoso que faz das palavras e pela reverência que – sem um pingo de inveja – presta ao melhor do mundo em sua modalidade, o jamaicano Usain Bolt. Sandro começou não gostando da forma como Bolt comemorou a vitória e quebra do recorde mundial em outra prova, a dos 100m rasos, fazendo gracinha para as câmeras, tipo vocalista de reggae doidão. “É falta de espírito olímpico”, condenou. Conhecedor do espírito olímpico, também reprovou a atitude do jamaicano na eliminatória dos 200 metros do último domingo, quando, depois de abrir uma vantagem maior que a do Grêmio no Brasileirão, diminuiu o ritmo de propósito e deixou-se ultrapassar por Rondell Sorrillo, de Trinidad e Tobago, chegando feliz da vida em segundo lugar. “Não é certo o que ele fez. Acho que o atleta tem que correr pensando no tempo, sempre olhando para a linha de chegada, e não para o público”, explicou Sandro, ocupadíssimo com a própria vida, como se percebe. Por causa de Bolt, Sandro andou até estudando física, provando que ficou para trás o tempo dos atletas carentes e sem formação escolar, tipo Zequinha Barbosa. Durante uma entrevista, deu uma verdadeira aula, usando o jamaicano, que tanto admira, como exemplo: “A biomecânica mostra que para correr os 100m, um atleta, mesmo de ponta, precisa de mais de 45 passos. Ele deu 39. A ciência não bate. Ele está três níveis à frente do resto, o que é bem estranho”. Não sabendo dizer se o sucesso de Bolt é fruto da aplicação nos treinos ou da bondade divina, Sandro, sensato e avesso à maledicência, não quis buscar outras explicações: “Não estou falando se é doping ou não, cabe à Wada [World Anti-Doping Agency, Agência Mundial Antidoping] decidir”. Como é bonito a gente ver um competidor reconhecer o talento de outro! Isso é Brasil, hein!

Enquanto Sandro Viana revela sua admiração por Usain Bolt, Jadel Gregório, do salto triplo, mostra ao mundo outra notável virtude brasileira: o “tô nem aí”. Perguntado se não estava preocupado por se classificar para a final em nono lugar, o saltador deu uma resposta que, pelo estilo, lembra Pelé, e pelo conteúdo, lembra Zagallo: “Estou preocupado com o Jadel”.

É isso aí, Jadel! A gente não ganhou esse monte de medalha pra ficar lá pagando pau para os outros, não! Eles é que têm de se preocupar com a gente! Como é bonito a gente ver uma atleta que estuda os adversários e luta até o fim para superá-los! Isso é Brasil, hein!

A humildade de Jadel tem motivado muito as pessoas que trabalham com ele. Peter Stanley, seu técnico inglês, já teve com ele duas conversas em Pequim, de cinco segundos cada uma, nos intervalos das longas orientações que dá a seus pupilos britânicos. E Pedro de Toledo, o técnico brasileiro, fez as malas e voltou para casa antes das finais. Jadel diz que não tem treta, não tem nada. Pedrão teria voltado porque não fala inglês nem chinês e estava se sentindo muito sozinho em Pequim. Faz sentido. Se eu tivesse de conviver com o Jadel, também me sentiria sozinho.

Finalmente, o Brasil, está ensinando ao mundo que, quando não dá pra ganhar na boa, sempre resta o recurso ao tapetão. Os dirigentes brasileiros tentam melar nos bastidores a final do salto com vara feminino, em que uma atleta brasileira garante ter sido gravemente prejudicada pelo desaparecimento de uma de suas varas. A vencedora da prova, a russa Yelena Isinbayeva, bateu o recorde mundial, saltou 25 centímetros a mais que a segunda colocada, e o Brasil ainda está brigando por causa da vara perdida.

Era inevitável que isso acontecesse. É tanto esporte, e o Brasil leva tanta vara, que alguma hora alguém ia acabar perdendo uma. Mas é isso aí: a gente foi lá é pra mostrar como é que se leva a vida levando vara, e que a gente perde a vara, mas não perde o sorriso. A gente foi lá mostrar que isso é Brasil!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Olha aí o pagode!

Finalmente descobri alguém que encontrou motivo para se divertir em Pequim: Silvio Luiz, o interminável narrador da Bandeirantes.

É preciso admitir que Silvio, goste-se ou não dele, desenvolveu, após anos de pesquisa e treinamento, uma forma muito peculiar de narrar partidas de futebol. Ele não se enquadra em nenhum dos perfis clássicos de locutores esportivos que se encontram em atividade, pode observar.

É impossível imaginá-lo fazendo o tipo narrador torcedor, por exemplo, que é o que caracteriza as transmissões do Galvão Bueno. "Quem é que sobe?", "Sai que é tua, Júlio César", "Segura fulaninho, que eu quero ver" são frases que não soariam bem na boca de Silvio Luiz, a quem o resultado do jogo e a sorte dos atletas interessam tanto quanto o futuro de Carlos Alberto Parreira como treinador interessa ao torcedor brasileiro.

Silvio também não é da turma que descreve minuciosamente as ações em campo, estilo muito adotado no rádio, em que o narrador não pode parar de falar um segundo, e que tem talvez em José Silvério, da Rádio Bandeirantes, seu maior representante. Antes mesmo de o goleiro cobrar o tiro de meta, Silvério já está descrevendo com que expressão facial ele irá recolocar a bola em jogo, quais as principais opções de passe, quem se encontra em impedimento, quem está passando a mão em quem e com que intenção. Silvio Luiz, não. Absolutamente alheio ao que acontece no campo, prefere, em vez de dizer quem está com a bola e o que pretende fazer com ela, falar sobre qualquer outra coisa que esteja em seu campo de visão (uma coxinha com catupiri que chegou, do nada, na cabine de transmissão, por exemplo) ou simplesmente em sua sempre ativa imaginação. Só se manifesta a respeito do jogo segundos antes de a bola entrar na rede, quando profere, meio a contragosto, o lendário grito de "Olho no lance!". Eventualmente, no meio da partida, também diz um "olha aí o pagode", quando nada está acontecendo.

Ele também não tem nenhuma semelhança com o narrador mentiroso, aquele que aumenta descaradamente a importância do que está acontecendo, descrevendo qualquer cena como o maior espetáculo da terra e dando à mais sonolenta partida ares de final de Copa do Mundo. Como faz há anos, sem nenhum constrangimento, Luciano do Valle, que não passa dois minutos sem usar a palavra "espetacular" ou "extraordinário", isso quando não inventa de comparar a Gordon Banks o goleiro Magrão, do Sport, por causa de alguma bola que bateu nele acidentalmente e foi para escanteio. O prestígio desse tipo de narrador, muito popular no tempo da TV preto e branco com chuvisco e interferências no sinal, diminui na mesma proporção em que aumenta a qualidade da imagem dos televisores. Tende a desaparecer por completo na era da TV digital. Silvio Luiz nunca foi disso. Ele é do tipo que acha que a partida de futebol só tem graça para duas espécies de pessoas: as que jogam e as que vêem na arquibancada. Para quem está em casa, não resta outra coisa a fazer a não ser aproveitar os 90 minutos para pensar em alguma coisa edificante, coisa que Silvio realmente ajuda o telespectador a fazer, puxando, um atrás do outro, assuntos com os quais, sozinho, ninguém conseguiria nem sonhar.

Finalmente, Silvio Luiz não é besta para fazer o papel de narrador vexame. O vexame é aquele sujeito que, antes da partida, decora, um por um, os nomes dos jogadores da Coréia do Sul e da Ucrânia. Tudo para, durante a transmissão, trocá-los delirantemente, chamando Jesus de Genésio o tempo todo, até chegar ao ponto de, já completamente ensandecido, errar os nomes das equipes, do estádio, da cidade em que o jogo acontece, do torneio em disputa e dos repórteres da emissora. É o que acontece com Luiz Alfredo, da Rede TV!, que numa final da Copa da Uefa, certa vez, chamava o Sevilha ora de La Coruña, ora de Mallorca, ora de Valencia, mas nunca de Sevilha. Sílvio Luís jamais preocupou-se em saber o nome dos sujeitos em campo. Quando decora o nome de alguém, é porque o achou engraçadinho e para poder repeti-lo mesmo quando o sujeito não estiver com a bola, mesmo depois de ser substituído pelo técnico.

E foi exatamente isso o que aconteceu durante a partida entre Itália e Camarões, pelo torneio masculino de futebol dos Jogos Olímpicos. Silvio Luiz encantou-se com o defensor Bochetti (todos os jogadores italianos são defensores, independentemente da posição que finjam ocupar em campo). Bochetti é um nome que Silvio nunca permitiria passar despercebido pelo telespectador. Desde a entrada das equipes, ele estava de olho no italiano. E já insinuando umas piadinhas. Com a bola rolando, até tentou lançar outros temas, variar a conversa, mas o jogo, praticamente um pacto de não-agressão, convidava Sílvio a voltar suas atenções para Bochetti. Aí, para ajudar, Bochetti derrubou um camaronês na área da Itália: pênalti. O lance não deu em nada, que o camaronês, como bom camaronês, bateu com aquela seriedade própria do jogador africano, e o goleiro italiano, como bom goleiro italiano, pegou quase sem usar as mãos. Mas foi o suficiente para que Silvio, a partir dali, não fizesse outra coisa a não ser especular sobre a importância do Bochetti, quando Bochetti é bom, se Bochetti no time dos outros é gostoso, se o Brasil, num hipotético confronto com a Itália, deveria tomar cuidado com o Bochetti, e outros trocadilhos e achados lingüísticos de indescritível beleza. Nada mais apropriado para uma manhã de quarta-feira.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Quem te viu, quem te vê

A seleção brasileira feminina de futebol já não levanta a torcida como antigamente. Anos atrás, dava gosto de ver as minas jogarem! Uma mais feinha que a outra – o que até é bom, assim a gente se concentra mais no jogo –, mas tão boazinhas, tão simpáticas, que não tinha como não acompanhar e dar uma força. E elas jogavam, hein! Era 5 a 0 num dia, 7 a 1 no outro e de vez em quando um 9 a 0. Fora as jogadinhas de efeito, as enfeitadas, as firulinhas e os totozinhos de primeira que, para aqueles desprendidos que não ligam para o resultado, normalmente atleticanos e botafoguenses, às vezes são até mais importantes que a vitória.

É, mas os anos dourados do futebol feminino já ficaram para trás... As meninas amadureceram, tornaram-se favoritas a tudo quanto é título, tiveram de se adaptar à nova realidade e ficaram mais folgadas que o Renato Gaúcho. Como normalmente acontece nesses casos, a pose de campeão de véspera veio acompanhada de uma considerável diminuição no rendimento da equipe, cujos jogos na China andam tão empolgantes quanto as provas de adestramento de cavalo. No 2 a 1 contra a Coréia do Norte, Cristiane, para não deixar dúvida de que os tempos são outros, ao ser substituída por Pretinha, armou uma confusão digna dos melhores momentos de Carlos Alberto, quando muda o penteado e começa a forçar a barra para sair do clube. Teve de ser contida pelas colegas de banco, para não se atracar com o treinador, que pode até voltar de lá sem medalha, mas já provou que é o melhor do mundo em matéria de paciência com mulher feia.

Futebol é assim, gente: vira e mexe alguém faz tanto sucesso, que deixa o sucesso subir à cabeça. Por isso que a gente tem de enaltecer o Hugo, do São Paulo. Ele liga tão pouco para o sucesso, que nem precisou fazer sucesso em alguma coisa para começar a se comportar como se fizesse.

O Hugo era um que a gente achava que, nessa altura, já ia ser dono de posto de gasolina ou de negócio na área de confecção, o tipo de empreendimento em que ex-atleta se mete logo após deixar os gramados e pouco antes de começar a pedir dinheiro emprestado na praça. Afinal de contas, o que esperar de um jogador dispensado pelo Corinthians, clube em que dar carrinho, entrar em dividida, agir como maloqueiro ou simplesmente saber contar piada já é suficiente para virar ídolo da torcida? Se não serviu para o Corinthians e não agradou no Grêmio, só o posto de gasolina o salvaria de acabar na segunda divisão do Rio, aceitando moto sem documento e AK-47 como pagamento por salários atrasados.

Mas que nada! Hugo virou titular no São Paulo e, depois da derrota para o Fluminense, todo contentinho por ter feito mais um de seus surpreendentes golzinhos, pôs para fora o Renato Gaúcho que havia dentro de si: “Fico chateado pelo fato de termos perdido para uma equipe inferior”. Imagine o que Hugo não vai falar no dia em que o São Paulo conseguir levar menos de três gols do Fluminense, hein!

Contudo, em termos de transformação repentina, ninguém é páreo para Dentinho, do Corinthians. Semana retrasada, após um treino, todo encabulado, fez o que pôde para se livrar de Monique Evans, a repórter que aborda o entrevistado de modo sempre objetivo, com perguntas complexas, cuidadosamente preparadas, como: “Posso pegar na tua bunda?”, “Posso ver teu umbiguinho?”, “O que é esse volume aqui no teu calção?”. A falta de jeito do menino a cada pergunta deixava claro que ele ainda não era um atleta maduro, verdadeiramente pronto para encarar a dura rotina de um jogador profissional.

Pois eis que, semana passada, do nada, o moleque aparece, cheio de malícia, cheio de idéia, mais soltinho que o Vampeta, puxando papo com todo mundo, dando preferência às mulheres na hora do autógrafo e usando uma faixa preta para prender o cabelo, tipo Ronaldinho Gaúcho, embora nem tenha tanto cabelo para prender. Os jornalistas, apressados, atribuíram sua mudança de atitude aos elogios que lhe foram feitos pela imprensa espanhola, que se refere a ele como “nova jóia”, e principalmente ao boato de que o Real Madrid, a Inter de Milão, o Arsenal, o Lyon, o Zaragoza e até o Al Hilal brigam para contratá-lo. Faz sentido, é verdade. Mas aquele sorriso, aquela alegria toda, não pode ser só porque ele conheceu o sucesso e está louco para morar na Europa... Esse Dentinho finalmente conseguiu comer alguém, hein!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Mais queimado que a pira olímpica

Os Jogos Olímpicos ainda nem começaram direito e já tem mulher chorando! Larissa, do vôlei de praia, desabou ao despedir-se da amiga Juliana, que não se recuperou de contusão e deu lugar a Ana Paula, aquela mesma, a eterna musa das quadras. Ninguém jamais saberá se o choro era de dó da companheira machucada ou de desespero de ter de estrear amanhã jogando ao lado de uma pessoa com quem nunca sequer treinou e com quem só treinará poucas horas antes da primeira partida, numa quadrinha descolada pela delegação brasileira na base do xaveco. Larissa está afobada à toa. Esse negócio de jamais ter jogado junto nunca foi empecilho pra nada. Ronaldo e Adriano também jamais jogaram juntos, mesmo estando a poucos metros um do outro, no ataque da Seleção, em 2006, e isso não impediu Ronaldo de cuidar da própria vida e sair da Alemanha como o maior goleador da história das Copas, absolutamente indiferente ao que Adriano fazia enquanto isso ali do lado. Faz o teu, Larissa, e deixa a Ana Paula levar torcida, que o que vai de homem atrás dela é inacreditável! E não há aqui nenhum duplo sentido em “o que vai de homem atrás dela”, antes que me acusem de tratar mulher que nem o Émerson Leão trata.

Se tudo der errado, resta a Larissa o consolo de pensar que nada no mundo pode ser pior do que jogar no Flamengo. O Flamengo vai treinar, o torcedor joga bomba. O Flamengo vai jogar com o Goiás, o torcedor joga bomba. É o acordo do ano: a torcida joga bomba e o time não joga nada! O Flamengo tá mais queimado que a pira olímpica!

Muito mais civilizada é a torcida do Náutico, que protestou atirando pipoca nos jogadores. Deu tão certo a manifestação, que Everaldo, zagueiro do time, tomou a iniciativa de conversar com os torcedores. Os caras perguntavam e Everaldo respondia. As perguntas eram duras, mas o zagueiro tinha explicação para tudo, tinha sempre uma boa resposta na ponta da língua. Parecia aquelas disputas de repentistas, muito populares no nordeste. Até que, uma hora, um torcedor perguntou ao atleta sobre o próximo jogo da equipe: “Se a gente não ganhar do Santos, vai ganhar de quem”? Essa resposta Everaldo está procurando até agora...

Se o Náutico não ganhar do Santos, meu conselho ao torcedor pernambucano é um só: faça como Larissa – chore! Mas chore mais do que todas as mulheres juntas ainda chorarão em Pequim, isso se o Flamengo não inventar de excursionar por lá e tudo não acabar em bomba.

Por falar em Santos, na Vila Belmiro também teve empurra-empurra e ameaça de bomba, na quarta-feira. Mas a diretoria agiu logo e mandou chamar o único homem capaz de garantir a segurança dos jogadores santistas num momento como esse: Serginho Chulapa, imenso e com aquele velho gingado. Ele está de volta à comissão técnica do clube, oficialmente como auxiliar, mas, na prática, para distribuir pescotapa em quem sonhar chegar perto do vestiário sem autorização. Tá com o Chulapa, tá com o Chuck Norris. Não tem pra Pequim nem pra ninguém – a Vila deve ser o lugar mais seguro do planeta nesse momento. A única coisa que os jogadores do Santos têm a temer agora é o próprio Serginho Chulapa...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Vamos dar a meia volta, volta e meia vamos dar!

Quando o Vasco perdeu de cinco para o Santos, fazendo um pênalti atrás do outro, fiquei meio sem entender o que o time carioca queria dizer com aquilo. Depois, quando o Atlético Mineiro levou seis do Vasco, entendi menos ainda. Só agora, após a derrota do Santos para o Atlético, é que compreendi finalmente que diabos os três clubes estão tramando com essa brincadeira de “vamos todos cirandar”: eles têm o plano de irem juntos para a segunda divisão.

A estratégia de agir em bando, inspirada no método empregado com eficácia pelos quenianos nas corridas de São Silvestre, configura concorrência desleal. Fluminense, Náutico e Portuguesa, se não tomarem providências logo, vão acabar perdendo a vaga na Série B que tanto já fizeram por merecer. E não adianta tentar um acordo semelhante, pra fazer frente à aliança alvinegra: a Portuguesa é rebelde demais para participar disso. Ganha quando tem de perder, entrega quando é pra ganhar, enfim, a Portuguesa é o Batman – age por conta própria, aparece quando quer e some sem deixar pistas.

A ciranda-cirandinha dos alvinegros não poderia ser posta em prática, claro, sem uma providencial dança das cadeiras com os treinadores. Alexandre Gallo, não contendo o ímpeto de sua juventude, foi o primeiro a partir. Cuca, sempre perfeccionista, esperou o time atingir aquele ponto em que não há mais salvação, para – aí, sim – abandonar o barco. E Antônio Lopes, experiente, maduro, vivido, esperneou até o fim e teve de ser expulso à tapa de São Januário, para não melar o esquema.

Concluída essa parte, teve início, ontem mesmo, nos vestiários, a fase 2 do projeto. Adivinhe quem o Vasco quer contratar para o lugar do Lopes? Sim, exatamente: Cuca! O Santos, mais discreto, tenta disfarçar. O dirigente Luiz Antonio Ruas Capella (Marcelo Teixeira, num momento bem Kia Joorabchian, falou que ia só ali ver não sei o que e ainda não voltou) disse que o time “não tem um nome em mente”. E o Atlético, mineiro que só, finge estar satisfeito com o trabalho do interino. Sei... Me engana, que eu gosto! Não dou dois dias para o Gallo aparecer na Vila Belmiro e o Antônio Lopes na Cidade do Galo.

Se a CBF não fizer nada, se ninguém impedir, até o fim do campeonato muita coisa ainda é capaz de acontecer. Morais, que acaba de sair do Vasco, pode, por exemplo – ó, coincidência! – aparecer sem mais nem menos no time do Atlético. Marques, então, alegando o não cumprimento de misteriosas cláusulas contratuais, rescinde com o Galo e – ah, vá! – assina com o Peixe. Aí Fábio Costa tem um daqueles seus dias de fúria, esbofeteia colegas durante o treino, faz as malas e – quem diria, hein!? – vai para o Vasco.

A torcida vascaína, que continua segurando na garganta bravamente o grito de “Eurico, ladrão, volta pro Vascão!”, já percebeu que Roberto Dinamite está de braços dados com santistas e atleticanos. Ontem, não se contendo, xingou o antigo ídolo pela primeira vez na história. Chamou-o delicadamente de “banana”. Dinamite não reagiu. Com aquele sorriso travado de quem saiu de mau jeito de uma consulta ao dentista, andou de um lado para o outro, cheio de otimismo e energias positivas. Mas é ou não é um banana? É o Banana de Dinamite!

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Os vídeos que todos gostariam de ver

Quanto mais a diretoria do Flamengo explica, menos dá para entender como vai ser afinal a tal parceria com o Google. O clube vai ter um site, dentro do YouTube, chamado Fla-Google. Tá. Um canal com vídeos exclusivos. Tá.

Que vídeos? Não de imagens de jogos do Flamengo, que todo mundo vê em tudo quanto é lugar. Nem de treinos, que o Flamengo nunca foi disso. Seriam vídeos produzidos pelo próprio Google, com o Diego Tardelli ganhando dividida, Obina pensando antes de se livrar da bola e Caio Júnior falando grosso na preleção? Também não, que o curta de ficção é um gênero em que a empresa não pretende investir no momento.

O que vai acontecer, então? O Flamengo vai pagar uns japas, desses que editam vídeo de casamento, para fazer umas montagens, tipo meter o som de Carmina Burana em cima de imagens do Nunes brigando? Não, com certeza, não. "O Flamengo vai pagar" é que nem o estádio do Corinthians: coisa que não existe.

Ricardo Heinrichsen, o vice-presidente de marketing do Flamengo (o Flamengo, a gente sabe, tem estrutura de empresa), diz que, no Fla-Google, os torcedores vão publicar seus próprios vídeos. Opa! Liberou geral, então? Não, não é assim que funciona. No time do Flamengo pode ter Jônatas, Toró, Vinícius Pacheco, mas no site não entra qualquer porcaria, não. Tem de ter conteúdo.

Heinrichsen está tão esperançoso de que vai aparecer algo mais que flagrante de tiroteio ou de pegação em baile funk, que até anunciou: "A intenção é fazer uma espécie de Oscar todo fim de ano, quem sabe premiando documentários de sessenta segundos, ou algo parecido". Ah, isso seria legal. Sobretudo se a estatueta, em vez daquela do Oscar, já batida e que não tem nada a ver com esporte, fosse uma miniatura do Oscar Mão Santa, do basquete, que jogou no Flamengo e, apesar disso, tem tudo a ver com esporte. Mas não vai ser, infelizmente: "Poderemos dar como prêmio, por exemplo, um dia como repórter no clube, entrevistando todos os jogadores", explicou Heinrichsen, com aquela cara de satisfação que fazem os gênios quando descobrem o que ninguém jamais poderia imaginar. Viu como faz diferença ter um vice-presidente de marketing?

Essa parceria é meio confusa, mas é muito legal! É vantajosa para todos: o Google não vai investir nada, o Flamengo não vai ter despesa e ninguém vai ganhar coisa nenhuma, o que evita futuras brigas na Justiça, que mal consegue arrumar tempo para julgar as expulsões do Kléber, do Palmeiras. E Heinrichsen, um sonhador, um homem de ideais, poderá continuar construindo o futuro: "O Flamengo deu mais um passo rumo à modernidade". Fortalecendo as relações sociais: "Será um espaço democrático onde todos poderão se expressar". Dando uma de cartola são-paulino: "Existe isso na Europa. Não igual, mas similar. Contudo, é inédito no país e também na América Latina". E, principalmente, engabelando Deus e o mundo: "Não vamos ganhar dinheiro agora, mas com certeza isso nos renderá lucro mais à frente".

Preocupado com a promissora parceria do rival, o Fluminense reagiu à altura: mandou Branco, que, como o universo, continua se expandindo, e que disputa pau a pau com Gilmar Fubá o título de ex-atleta mais gordo do Brasil, à Europa, para voltar de lá com coisa muito melhor do que vídeo no YouTube. Branco não decepcionou: voltou apalavrado com o presidente do Paris Saint-Germain e anunciou um acordo entre os dois clubes que promete dar de dez a zero no Fla-Google em matéria de "ninguém ganha nada com isso".

Relaxa, Branco: esse negócio de Fla-Google não vai pegar. O Flamengo tinha é que gravar as baladas que os seus jogadores freqüentam e jogar o material na mão do John Stagliano, para ser editado como merece. Aí, sim, o conceito de online adult entertainment nunca mais seria o mesmo e teríamos uma revolução de verdade na internet. Os vídeos da Fla-Buttman seriam baixados até em São Januário!

sábado, 2 de agosto de 2008

Eurico se foi, mas o show não pode parar

O Vasco é o único time do mundo que entra em crise depois de ganhar de 6 a 1. Quando Leandro Bonfim, Morais, Jean, Antônio Lopes, Roberto Dinamite e Edmundo trabalham juntos, esse negócio de vitória ou derrota é detalhe. O pau pode quebrar a qualquer momento, principalmente se não houver motivo. E esta semana quebrou gostoso, com direito a uma deliciosa seqüência de acusações, uma patifaria como não se via desde os tempos de Romário, Müller e Zagallo na Seleção.

Morais deu início aos trabalhos, ao desaparecer dos treinos e avisar que estava com medo de apanhar da torcida. Roberto Dinamite, que como cartola faz muito mais jus ao nome do que como jogador, mostrou profundo conhecimento de psicologia esportiva e de gerenciamento de crises: "Ele tem que respeitar o clube que paga o seu salário. Não adianta ter desequilíbrio e ficar desesperado". Tem que respeitar, tá certo. Não é porque o Vasco pagou no dia 31 o salário do dia 20, que o jogador vai se apavorar. Além do mais, quem é que nunca foi ameaçado de morte pela Força Jovem? Fora que o Morais já enfrentou coisa pior e agüentou. Já jogou até com o Abuda!

A conversa podia ter acabado aí. Mas o Antônio Lopes não é de deixar um assunto morrer assim tão fácil, sem participar dele. Lembrando os bons tempos de delegado, acostumado a lidar com delinqüentes, saiu em defesa de Morais com uma das mais interessantes teorias sociológicas surgidas nos últimos tempos: "Ele não vem de classe social mais baixa e, por isso, sente mais. Geralmente os garotos mais pobres conseguem passar por cima disso com mais facilidade". Ou seja, o Lopes vai defender o Morais diante da torcida e chama o cara de playboy chorão. E diz que é amigo, hein!

Com as coisas nesse ponto, Jean e Leandro Bonfim começaram a sentir dores. No tornozelo, na panturrilha, no joelho, na coxa, nas costas, em vários lugares simultaneamente, que é pra dificultar o diagnóstico. E faziam umas caras que não deixavam dúvida: ou estavam pra morrer, ou aquilo era uma das maiores veadagens já encenadas nos bastidores do futebol.

Bem, o Vasco entrou em campo sem Morais, sem Jean e sem Leandro Bonfim, o que sempre ajuda. Contra o Atlético Mineiro, que é o sonho de todo torcedor carente. Edmundo acabou com o jogo e o time deu de seis. E Edmundo, que não é de perder uma oportunidade, resolveu, após a partida, revelar que Leandro Bonfim e Jean simularam contusão para não jogar.

Leandro fingiu bem e respondeu com ironia: "Edmundo, além de jogar, é médico agora". Já Jean falou que jogador brasileiro não faz essas coisas, que é homem e tem vergonha na cara, que tem o laudo médico comprovando a contusão, que o Brasil inteiro conhece o seu caráter e que para o Edmundo ele não tira o chapéu, caso Raul Gil um dia venha a perguntar. Em resumo, praticamente confessou o crime.

Dinamite, como bom chefão, deu a última palavra, que os estudiosos ainda não conseguiram estabelecer se é a favor, se é contra ou se sei lá: "Quando for falar alguma coisa, precisa falar certo. Coisa de interesse da equipe fica entre nós".

Alheio a tudo isso, um repórter carioca, ligeiramente empolgado com a vitória vascaína, perguntou a Edmundo se o time vai brigar pelo título. "Temos que aproveitar os jogos em casa para fazer uma campanha digna" foi a resposta. Tudo bem que espancar o Juninho Paulista já é um pouco demais, mas que dá saudade do tempo em que o Edmundo maltratava repórteres que faziam perguntas idiotas, isso dá!

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sai, coisa ruim!

No Rio Grande do Sul, foi uma festa só quando anunciaram que Daniel Carvalho e D’Alessandro eram jogadores do Internacional. No estilo das tradições gaúchas, os torcedores colorados saíram dançando pela cidade, homem beijando homem, bigode com bigode, como eles preferem lá. A imprensa local, uma das menos bairristas do país, como é sabido, apressou-se a especular que os dois novos contratados, ao se juntarem a Alex, Fernandão e Nilmar, permitiriam ao Inter finalmente jogar futebol e abandonar aquela retranca que nem o Barcelona conseguia furar. A chula e a chimarrita voltariam a ser dançadas nos estádios, com os homens sapateando, desmunhecando impunemente e atirando lencinhos ao alto, tal qual nos velhos tempos gloriosos de Valdomiro, Dadá Maravilha e Falcão.

Os gaúchos só se esqueceram de que, além de Daniel Carvalho e D’Alessandro, outros reforços chegaram ao Beira-Rio... Depois da esfuziante passagem de Róger pelo Grêmio – com um saldo positivo de sete gols de pênalti, três na cara do goleiro, vários piques desanimados de dois metros e possivelmente algumas mães solteiras –, chegam agora a Porto Alegre, saídos daquele mesmo time do Corinthians, Rosinei e Gustavo Nery.

Rosinei não vem para brincadeira. Ele sempre aparece "para compor o grupo", entrar no segundo tempo, coisa e tal, mas, mandingueiro de primeira, arruma logo um lugar no time titular, aproveitando a contusão de um e a má fase de outro. É mundialmente conhecido por fazer sempre o gol de honra, nas derrotas por 2 ou 3 a 1. Uma contribuição e tanto para o saldo de gols, aspecto importantíssimo a ser observado, uma vez que é muito comum um torneio ser decidido no saldo de gols.

Quanto a Gustavo Nery... Bem... O filme já passou em vários lugares. Ele chega todo tatuado, de camiseta regatinha, cabelo parafinado, estilo baby look. Beija a camisa na apresentação, beija o presidente do clube, beija repórteres e abraça geral. Na primeira entrevista, já fala em título e promete raça. As senhorinhas mais antigas sempre comentam: "Que rapaz bem simpático, bem apessoado!". Aí ele estréia marcando gol. É o delírio. Dalmo Pessoa e Juarez Soares já começam a falar que é jogador de Seleção. Nas partidas seguintes, o time vence, ele dá assistências, joga a camisa pra torcida, mostra alguma tatuagem nova. É o auge. Então, de repente, você começa a perceber que o resto do elenco anda meio cabisbaixo, com aquela cara de quem passa o dia inteiro escutando Joy Division. O treinador, antes disciplinador, tornou-se de uma hora para outra um Oswaldo de Oliveira: caladão, olhar perdido e a inconfundível cara de derrota. Aí você já sabe: o alto astral de Gustavo Nery, seu estilo de vida saudável, contagiou o grupo. Em poucos dias, não há mais treino coletivo que não termine em sopapo. Os mais sensíveis começam a ter crise de choro no vestiário. Quanto tudo parecia perdido (o campeonato, nessa altura, já foi faz tempo), você descobre que Gustavo Nery não aparece para treinar há três dias, que foi visto bebericando em Ibiza e recebeu proposta de algum clube que, envergonhado, ainda não teve coragem de assumir que está atrás dele.

Eu não sei se Gustavo Nery vai brilhar no começo como de costume, mas uma coisa é certa: a derrota para o Santos, ontem, no Beira-Rio, é sinal de que seu alto astral já chegou ao grupo do Inter.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Mais que a boca

Cada vez mais eu me convenço de que o Flávio Prado é que está certo: futebol é planejamento. O Atlético Paranaense, por exemplo, não construiu aquele estádio bacana, ganhou um Brasileirão e foi vice da Libertadores à toa. Por trás há, com certeza, a visão estratégica de cartolas modernos, diferenciados, high tech. Como o Mário Celso Petraglia, por exemplo, que preside o Conselho Deliberativo do clube e explicou outro dia como fazer para tirar o time daquele meião da tabela, de onde, em solidariedade ao Coritiba, parece não querer sair de jeito nenhum: "Não traremos mais jogadores meia-boca". A descoberta de que, contratando bons jogadores, o time melhora, é a maior novidade do futebol brasileiro, desde que Celso Roth percebeu que escalando atacantes aumentam as chances de o time fazer gol.

Petraglia é mesmo um cartola diferente. No uso da expressão "meia-boca" para se referir aos jogadores que seu time contratou para o Brasileiro já se vê um sinal evidente de educação refinada, de inspiração européia, bem ao gosto dos curitibanos. Mas, quando explicou porque é hora de o Atlético parar de investir em Gabriel Pimba, Irênio e Marcelo Ramos, antes que seja tarde, é que ele revelou toda sua erudição, toda sua cultura: "Marmelada na hora da morte mata mais rápido".

É de gente culta assim que o futebol brasileiro precisa. O Vasco contratou o zagueiro Rogério Correa (aquele mesmo) para tirar o time da zona de perigo? O que Petraglia diria disso, se lhe perguntassem a respeito? "Ah, pimenta nos olhos dos outros é refresco".

Bordon (aquele mesmo) quer abandonar o futebol para cuidar da mãe? Ouçamos Petraglia, a voz da sabedoria: "Jacaré no seco anda".

Romário vai lançar DVD para provar que marcou mesmo os mil gols que só ele viu? Comentário Petraglia: "Que time é teu"?

Antônio Lopes pode ser demitido a qualquer momento? Opinião Petraglia? "A dor ensina a gemer".

Petraglia não é um cartola: é um estilo de vida, um jeito diferente de se administrar futebol. Nele vê-se a mesma delicadeza e inteligência que marcam as palavras sempre sensatas e meditadas de Marco Aurélio Cunha, Antônio Roque Citadini (in memoriam) e Salvador Hugo Palaia. Todos herdeiros da sutileza e serenidade de Vicente Matheus.

O time do Atlético pode até ser meia-boca. Mas esse Petraglia fala mais que a boca, pra compensar.