quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Saudade de quem não veio

O torcedor vascaíno não esquecerá tão cedo a última terça-feira, 26 de agosto. No dia, completaram-se dez anos da histórica conquista da Libertadores por aquele time de Carlos Germano, Mauro Galvão e Juninho Pernambucano.

Sem dinheiro nem pra encomendar um cento de coxinha frita e umas garrafas de guaraná Dolly, o Vasco não programou para a data nenhuma festinha ou homenagem. Mas, para o dia não passar em branco, decidiu fazer nele a apresentação oficial de seu novo reforço, o homem escolhido a dedo por Roberto Dinamite para tirar o time das últimas posições no Brasileiro: o lateral esquerdo Márcio Careca.

A imprensa carioca, acostumada a cobrir tiroteio em baile funk, encalhe de baleia em Copacabana, revolta em trem suburbano e coisa muito pior, não decepcionou: compareceu em peso para ouvir as primeiras palavras do – aonde é que o mundo vai parar!? – novo ídolo vascaíno. Tita, mostrando toda a confiança que tem no seu elenco, repetia, desesperado, que precisava demais desse reforço. No calor da emoção, até anunciou a estréia de Careca já para o próximo jogo do Brasileirão, contra o Grêmio.

Tudo em vão. Márcio Careca não apareceu em São Januário. Os diretores vascaínos corriam de um lado para o outro, falavam ao celular, davam palpites para o Jogo do Bicho, mas não conseguiam oferecer nenhuma explicação satisfatória para a ausência do novo reforço. No fim, pressionados, admitiram que, na verdade, Márcio Careca nunca assinou com o Vasco, que o Barueri, clube do jogador, dificultou a negociação, que vai ficar tudo por isso mesmo, que o importante é ter saúde, que a vida continua e que eu nunca vou te abandonar porque eu te amo.

Bom para todo mundo. Careca, que várias vezes escapou de apanhar – não diria merecidamente, mas, digamos assim, com motivo – da torcida do Palmeiras, pode continuar tranqüilo no Barueri, onde ninguém vai se preocupar em saber qual o destino das bolas que ele, nas raras vezes em que chega à linha de fundo e arrisca um cruzamento, joga, todo desengonçado, todo sofrido, quase fora do estádio. O torcedor do Vasco, que só não bateu ainda em ninguém porque não sabe por quem começar, também não precisa se preocupar em ter de colocar mais um na lista do acerto de contas.

A imprensa carioca, contudo, não gostou. Ela foi ali para ver um show, para fazer mais estardalhaço com a chegada de Careca do que a imprensa paulistana fez na volta de Maurren Maggi ao Brasil. Indignada com as desculpinhas dos dirigentes, exigiu explicações do técnico Tita. Afinal, como é que Tita anuncia que vai escalar na próxima partida um jogador que nem é do clube? A diretoria não havia lhe dado garantias? Tita, louquinho pra tirar o seu da reta, tratou logo de explicar que nenhum dirigente conversou com ele sobre a contratação de Márcio Careca. O técnico, na verdade, vinha acompanhando o caso pela imprensa...

Organização, divisão de responsabilidades, modernos mecanismos de comunicação, entendimento. O Vasco de Dinamite mostrou, num único dia, que é isso e muito mais. Muito mais, sim, pois não acabou aí. Quando os repórteres já se preparavam para voltar desanimados às redações, eis que surge em São Januário a lendária, carrancuda e consideravelmente obesa figura de Odvan.

Foi um rebuliço! Torcedores chorando, se abraçando! Repórteres sorrindo novamente! O Vasco, afinal, havia preparado uma surpresa. Aquela história de apresentar Márcio Careca era só pra despistar! Que Márcio Careca, que nada! Ele que vá jogar bola pela linha de fundo no interior de São Paulo! O Vasco decidira, então, homenagear todos os heróis da conquista de 98 na pessoa do humilde zagueiro Odvan, “símbolo da raça” (sempre dizem isso, né?) daquele time vencedor. Um gesto singelo, delicado, nobre. O Vasco pode não ter dinheiro, mas tem história, tem respeito pelos seus ex-jogadores e por sua torcida! Que terça-feira espetacular!

Bem, mas bastou os microfones serem apontados para Odvan, para todos descobrirem que não era nada disso. Odvan não havia ido a São Januário para inaugurar placa comemorativa, vestir faixa e recordar detalhes da campanha na Libertadores de dez anos atrás. Odvan não estava ali a passeio. Odvan pegou a camisa, vestiu, beijou e anunciou, para uma imprensa carioca que não ficava tão perplexa desde o dia em que descobriu que o Engenhão existia e não era só um projeto engana-mané, tipo estádio do Corinthians, anunciou, repito, que é o mais novo reforço do Vasco para o segundo turno do Brasileirão.

Um instante de silêncio. Passarinhos cantam ao longe. E de repente bate no torcedor vascaíno uma inexplicável saudade do Márcio Careca!

4 comentários:

Vives disse...

É a segunda vez que eu leio este texto e é a segunda vez que tenho convulsões de tanto rir.

Abimael Forquilla disse...

Vives, é de leitores como você, que, na falta de textos novos, riem duas vezes com os antigos, que este blog precisa! Ah, se o torcedor vascaíno tivesse essa capacidade de, na falta de títulos novos, rir duas vezes com os antigos...

Antonio disse...

Texto sensacional!!! Só lendo textos assim nos faz esquecer, por algun s instantes, da campanha q o Vasco tá fazendo...
Parabéns Abimael!!!

Abimael Forquilla disse...

Obrigado, Antonio. O "Grandes Momentos do Esporte", da TV Cultura, exibiu hoje uma homenagem aos 110 anos do Vasco. Uma hora de jogadas do Zanata, de gols de Dinamite e Romário e de Luís Melodia cantando o hino do clube. Sacanagem da Cultura exibir isso numa hora dessas! Crueldade maior com o torcedor vascaíno só mesmo Leandro Amaral fez, quando resolveu voltar.